Blog Granraiz

Por que a cachaça tem tantos nomes?

De A a Z, a cachaça carrega a cultura do Brasil em seus sinônimos

Nem é preciso sair de casa para perceber que o Brasil tem muitas línguas. Através da televisão, seus telejornais e novelas, vemos uma diversidade de sotaques e gírias que se adaptam conforme a região do país. Essa é a mistura que faz daqui um lugar rico em cultura, história e um povo cheio de energia.

Somos um povo de misturas, a miscigenação entre culturas e histórias.

No livro “Grande Sertão: Veredas”, o grande escritor brasileiro do século XX, Guimarães Rosas, um dos grandes estudiosos da nossa língua, demonstrou um pouco dessa mistura ao utilizar, ao longo do livro, diferentes nomes para citar a palavra “diabo”. 

Com o destilado mais antigo das Américas não poderia ser diferente. Ao ser criado em um país altamente miscigenado, foi natural que ele haveria de receber diversas nomenclaturas.

Origem da palavra Cachaça

Conta o folclore popular que o primeiro nome da cachaça foi “aguardente” e teria surgido quando, em meio a produção do melado feita pelos escravos, veio a fermentar um líquido, formando o álcool, que esquentado tornou-se vapor, formando goteiras no teto do engenho e pingando a “aguardente” nas feridas das costas dos escravos.

A cachaça teve origem durante a produção de melado nos tempos coloniais

Segundo Cândida Seabra¹, “sobre a palavra ‘aguardente’, não restam dúvidas quanto à sua origem: no século XV, documenta-se a forma composta ‘água ardente’; já no XVI, há a aglutinação ‘aguardente’, persistindo, contudo, em vários textos, a forma composta por justaposição, ainda nos séculos seguintes”.

A real origem do nome “aguardente”, no sentido etimológico, vem do latim aqua vitae, que se intitula a “água da vida” ou “água de fogo”, também usada para definir vodka e uísque em outras culturas.

A palavra cachaça foi reconhecida pelas autoridades portuguesas no século XVII.

Mas foi apenas no século XVII que a palavra cachaça foi registrada pela primeira vez em sua forma escrita, em uma carta de oficiais à majestade portuguesa¹: “Nesse excerto, podemos observar não só o nome “cachaça” incorporado à cultura brasileira (…) como, também, é ressaltado o valor dessa bebida como papel moeda, taxada pela metrópole portuguesa”.

Em 1871, a palavra cachaça foi registrada no Grande Diccionario Portuguez², do Frei Domingos de Vieira: “CACHAÇA, s. f. (?) Vinho das borras. = Empregado por Sá de Miranda.—Termo do Brasil. Aguardente de mel, ou borras de melaço; escuma grossa, que se separa do succo das canas do assucar na primeira fervura nas caldeiras, onde se limpa, antes de passar ás tachas, depois de bem depurado, e ajudado com decoada de cal ou cinzas. = Moraes”.

Mas por que a chamamos por tantos nomes diferentes?

Cachaça e os seus sinônimos

Obviamente que uma bebida criada em um país altamente miscigenado, em que a produção foi levada por estas pessoas vindas de inúmeros lugares do mundo, naturalmente haveria de receber diversas nomenclaturas. Cada região teve seu modo criativo, e às vezes peculiar, para batizar a bebida.

Rótulos de cachaças antigas e regionais.

Alguns desses nomes, que não foram só usados naquela época, são ainda pertinentes em nossa cultura: cana, pinga, mé, amuada, moça bonita, tome juízo, entre outros inúmeros. Entre estes, estão mais de 500 outros sinônimos, que você já pode ter ouvido ou até usado algum dos termos.

Nuvem de palavras com sinônimos para a “cachaça”.

A cada região do país a bebida ganha um nome ou ‘apelido’ diferente. Conheça alguns deles para não errar ao pedir a sua.

Nordeste

  • Assovio de Cobra
  • Sete virtudes
  • Faz-xodó
  • Esprito
  • Leite de perereca
  • Lágrima de virgem
  • Esquentante

Norte

  • Garapa doida
  • Cachimbada
  • Suor de alambique
  • Levanta-velho
  • Mamãe-sacode
  • Pinicilina

Centro-oeste

  • Carne de sol de garrafa
  • Geribita
  • Birinaita
  • Mata bicho
  • Chá de cobra
  • Daquela que matou o guarda

Sudeste

  • Danada
  • Orogange
  • Xica-xica
  • Limpa goela
  • Marvada
  • Meu consolo
  • Manhosa

Sul

  • Esquenta corpo
  • Martelinho
  • Mulata
  • Martelada
  • Bafo de tigre
  • Cheiro da Mulata

Referências Bibliográficas

¹ Seabra, Maria Cândida Trindade Costa de. CACHAÇA: CULTURA, ORIGEM, VARIAÇÕES. Disponível em: Salvador: Instituto de Letras – Estudos Linguísticos e Literários, Nº 52, ago-dez, 2015. 
² Vieira, Frei Domingos. Grande Diccionario Portuguez. Portugal: Casa dos Editores Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871.
Silva, Jairo Martins da. Cachaça: história, gastronomia e turismo. São Paulo: Editora Senac de São Paulo, 2018.
Alcarde, André Ricardo. Cachaça: ciência, tecnologia e arte. 2a Ed. São Paulo: Bucher, 2017.

Referências de sites

Comentários