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Você conhece a história do drink Rabo de Galo?

O coquetel, que combina a cachaça com vermute, mostra que o Brasil não é apenas da caipirinha.

Quais as diferenças, ou melhor dizendo, as semelhanças entre o galo, o italiano e a cachaça?

A pergunta acima pode parecer o contexto de uma piada, mas, na verdade, ela resume a história do Rabo de Galo, coquetel brasileiro que combina a cachaça com o vermute.

O Brasil é conhecido mundialmente pela sua famosa caipirinha, mas outro drink nacional tem lutado para ganhar o seu espaço na lista dos coquetéis oficiais do International Bartender Association (IBA).

A conexão entre o Brasil e a Itália

Vamos fazer uma viagem no tempo, para entender como o Rabo de Galo surgiu através da união de culturas entre dois povos de países tão distantes.

Para isso, vamos começar esta história pelo ano de 1850, quando o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queirós¹, que extinguiu e criminalizou a entrada de escravos no país. O fato foi resultado de uma massiva pressão da Inglaterra, para que a nação parasse de utilizar a mão de obra escrava em seus processos de produção do café e do açúcar.

Eusébio de Queirós era ministro da Justiça e o autor da lei que carrega o seu nome. Fonte: Galeria dos Brasileiros Ilustres, de Sébastien Auguste Sisson.

Durante o mesmo século, a Itália vivia o Risorgimento, um movimento que buscava unificar o país, que antes era dividido em cinco reinos conhecidos como Península Itálica². Como a história nos conta, essa unificação de povos, que possuíam uma vasta diferença histórica, linguística e cultural, causou uma verdadeira crise no desenvolvimento do novo país³.

Divisão do território italiano nos reinos Reino Sardo-Piemontês; Reino Lombardo-Veneziano; Ducados de Parma, Módena e Tosaca; Estados Pontifícios; Reino das Duas Sicílias,1858.

Apesar das emigrações européias terem ocorrido de forma massiva entre os séculos XIX e início do século XX, a união da Itália foi um dos movimentos mais expressivos daquele país. Além do próprio continente europeu, os italianos buscaram na América uma oportunidade de uma vida melhor em países como Estados Unidos, Argentina e Brasil – além do Uruguai, o Chile e a Venezuela.

Neste período, famílias inteiras se despediram da sua terra mãe para desembarcar e construir novas histórias em outros países com culturas desconhecidas. Para o Brasil, vieram as famílias do norte da Itália, em sua maioria camponeses, atraídos principalmente pelo trabalho agrícola. 

Imigrantes italianos recém-chegados ao Brasil. Fonte: Fundação Patrimônio da Energia de São Paulo – Memorial do Imigrante.

Com a perda da mão de obra escrava, as famílias logo foram alocadas nas grandes fazendas de café. Foi assim que o estado de São Paulo4 recebeu aproximadamente 70% de todos os imigrantes que chegaram em terras brasileiras. Registrou-se, até o ano de 19205, a entrada de mais de 1 milhão de italianos.

O surgimento do Rabo de Galo

Agora que já conhecemos a história da chegada dos italianos no Brasil e a mistura entre nossos povos, vamos avançar para os anos de 1950, com a chegada da fábrica Cinzano6 ao país, também instalada no estado de São Paulo. A marca italiana era a produtora de um vermute que carrega o seu nome e se caracteriza por uma bebida à base de vinho com açúcar, álcool e infusão de ervas e especiarias.

Panfleto de propaganda do Cinzano, no Brasil, em 1944.

A bebida era uma das mais consumidas na Itália e se tornara um símbolo nacional para os italianos. Tendo em vista a grande quantidade de imigrantes no Brasil, a Cinzano viu, então, uma grande oportunidade de negócio em terras estrangeiras.

Ao fazer uma pesquisa de mercado, a marca descobriu que o paladar dos italianos, pelo seu tradicional vermute, havia sido alterado por uma famosa e tradicional bebida brasileira: a cachaça7.

De olho no mercado, e na intenção de voltar a estimular os italianos a consumirem o seu produto, a Cinzano teve a ideia de criar algo inovador: misturar as duas bebidas para trazer de volta o apreço dos imigrantes pelo tradicional destilado italiano.

O resultado foi um coquetel de tom avermelhado com sabor único e que agradou nativos e europeus. Mas essa novidade não podia ficar apenas nos balcões dos bares e, para crescer entre a sociedade, precisava de um nome a sua altura.

Rabo de Galo: a mistura entre a cachaça brasileira e o vermute italiano que agradou nativos e imigrantes.

Inicialmente lhe foi atribuído o nome de Cocktail, nome utilizado pelos norte-americanos para designar um drinque que mistura duas ou mais bebidas. Mas o nome não agradou muito, pois se tratava de uma bebida brasileira e precisava ter suas raízes respeitadas em seu nome. Foi, então, que surgiu a ideia de traduzir a palavra ao pé da letra: Cock, que significa galo e Tail, que significa rabo em inglês, transformando-a em “Rabo de Galo”.

O reconhecimento mundial

Já se passaram 65 anos desde que o drink entrou para a história de São Paulo e do Brasil. Assim como a caipirinha, a bebida pode ser considerada como um patrimônio nacional. Um dos maiores bartenders do Brasil, Derivan Ferreira, tem trabalhado duro para que o nosso Rabo de Galo ganhe o seu reconhecimento mundial.

Chegar a lista do International Bartenders Association (IBA) é a maior realização para o coquetel brasileiro. Nela, estão os drinks mais famosos do mundo e utilizados na competição mundial de coquetéis para bartenders, o “World Cocktail Competition” (WCC).

O Rabo de Galo vai entrar para a lista dos drinks mais famosos do mundo.

Atualmente, apenas a caipirinha tem a honra de compor a lista, mas o Brasil vai ganhar um novo membro em breve, de acordo com Derival8. A bebida foi aprovada pelo comitê organizador da IBA e espera-se que ela entre no catálogo ainda em 2019.

A receita perfeita do Rabo de Galo

Depois de conhecer toda a história que envolve a bebida Rabo de Galo, você não poderia sair daqui sem ter a oportunidade de aprender a fazer um perfeito e tradicional Rabo de Galo, seguindo a sua origem de ⅔ de cachaça e ⅓ de vermute. Não precisa se preocupar com a matemática, nós explicaremos melhor a seguir.

Para preparar o tradicional cocktail brasileiro você vai precisar de uma boa cachaça e um vermute.

Ingredientes

  • 35 mililitros (mL) de GRZ Soul.
  • 15 mililitros (mL) de vermute Rosso.
  • 1 casca de limão taiti para decorar. 

Como fazer 

Misture os ingredientes em um copo de shot e decore com a casca de limão. Aproveite e beba com moderação! 

Referências bibliográficas

Ajzenberg, Elza. A semana de arte moderna de 1922. São Paulo: Revista de
Cultura e Extensão USP, 2012.
4 Klein, Hebert S. A integração dos imigrantes italianos no Brasil, Argentina e Estados Unidos. Novos Estudos CEBRAP Nº 25, pp. 95-117, outubro de 1989. Disponível em: https://web.archive.org/
5 Angelo Trento. ‘Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil’. [S.l.: s.n.], 1989.

Referências de sites

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