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Você conhece a origem da cachaça?

Conheça a história, os mitos e algumas curiosidades sobre o surgimento da cachaça, o destilado do Brasil

A cachaça é uma bebida genuinamente brasileira produzida através da destilação do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar. Para entender como ela surgiu é preciso conhecer um pouco da história de sua matéria prima – a cana – e do alambique, equipamento que possibilitou o seu processo de produção.

A origem da cana-de-açúcar e como ela chegou na Europa

Plantação de Cana-de-Açúcar.

As primeiras plantações de cana foram originalmente usadas como alimento para porcos domesticados, por volta de 6000 a.C., pelos índios papuas de Nova Guiné, ilha a sudoeste do Oceano Pacífico¹. De lá, os povos austronésios – considerados os grandes navegantes da pré-história, pois colonizaram maior parte do Índico e Pacífico – levaram o conhecimento sobre a cana lentamente em direção ao leste, no sudeste da Ásia, passando pela China até chegar à Índia, onde a primeira produção organizada de açúcar começou em meados do primeiro milênio².

Centros de origem da cana. Em verde está Nova Guiné e as flechas pontilhadas representam as introduções austronésias.

A Índia, onde foi desenvolvido o processo de refinação do suco de cana em cristais granulados, era frequentemente visitada por comboios imperiais (como os da China), para aprender sobre cultivo e refino de açúcar. No século VI d.C., o cultivo e o processamento do açúcar haviam chegado à Pérsia e, a partir daí, esse conhecimento foi trazido para o Mediterrâneo pela expansão árabe³. “Onde quer que fossem, os árabes [medievais] traziam consigo o açúcar, produto e tecnologia de sua produção”.

A exploração e conquista espanhola e portuguesa, no século XV levaram o açúcar a sudoeste da Península Ibérica. Henrique, o Navegador, introduziu a cana no território português da Madeira, em 1425, enquanto os espanhóis, depois de subjugarem as Ilhas Canárias, introduziram a cana-de-açúcar. Em 1493, em sua segunda viagem, Cristóvão Colombo levou mudas de cana para o Novo Mundo.

O processo de destilação e a origem do alambique

O Alquimista, pintura de David Teniers the Younger (entre 1640~1650).

O processo de destilação, do latim “de-stillare” (gotejamento), basicamente consiste na separação de um líquido por evaporação e condensação através de um equipamento chamado alambique. Suspeita-se que sua primeira utilização foi em 2.000 a.C., na Mesopotâmia, para a produção de perfumes.

Há historiadores que sugerem a China como sendo o primeiro local a utilizar o processo de destilação⁵, outros sugerem a Itália. Porém, a maioria das autoridades acredita que foi no mundo árabe que o uso da destilação, como forma de obtenção de álcool, se popularizou através de Abu Musa Jabir ibn Hayyan, alquimista conhecido pelo nome latino Geber, por volta do século VII.

Geber descreveu a destilação usando um alambique no século VIII.

Alambique é uma palavra derivada do árabe (al-‘ambiq) que traz consigo o significado metafórico de “algo que refina, que transmuta”. O primeiro uso do álcool foi para fins medicinais e para prolongar a expectativa de vida. Era conhecido como “água espirituosa”, um elixir de cura. 

À medida que o conhecimento sobre o processo de destilação se espalhava, a tecnologia do alambique foi evoluindo, conforme o país que utilizava o equipamento e do objetivo da destilação.

A origem da Cachaça

Engenho de Itamaracá, de Frans Post para mapa de Gaspar Barlaeus, 1647.

A história da cachaça se confunde com a história do Brasil. Quando Portugal empreendeu as expedições em busca de novas terras, encontrou no Novo Mundo vastas áreas férteis com um clima muito melhor para o plantio da cana. Foi natural que, junto com as primeiras amostras de cana trazidas nas caravelas, o alambique também fosse colocado como parte do conjunto de equipamentos e ferramentas para a descoberta e fixação de novas colônias. 

A primeira plantação de cana-de-açúcar no Brasil foi feita em 1504, pelo fidalgo de Portugal Fernão de Loronha, que recebeu a ilha que hoje leva seu nome (Fernando de Noronha), para a exploração do pau brasil.

Brasão da família Noronha.

Há referências de que o primeiro engenho de açúcar foi construído em 1516, na Feitoria de Itamaracá, pelo Rei D. Manuel, no litoral pernambucano e confiada ao técnico de administração colonial Pero Capico

Apesar de não haver um registro preciso sobre o verdadeiro local onde a primeira destilação da cachaça tenha sido iniciada, pode-se afirmar que ela se deu no território brasileiro, em algum engenho do litoral, entre os anos de 1516 e 1532, sendo, portanto, o primeiro destilado da América, antes mesmo do aparecimento do pisco peruano, da tequila mexicana e do rum caribenho.

Cronologia da criação dos principais destilados da América

Tudo indica que os portugueses sabiam muito bem o que estavam fazendo. Além do conhecimento para manejar o alambique, tinham uma exata noção do que teriam após a destilação do mosto fermentado do caldo de cana. Com isso, descartamos a hipótese de que a cachaça tenha sido um criada por acaso em terras brasileiras.

Sabemos que a cana-de-açúcar é planta originária de outras terras. Também sabemos que o processo de produção do álcool em alambiques não é uma criação nossa. Porém, foi aqui, em terras brasileiras, que nasceu a cachaça, uma bebida a base de cana-de-açúcar cujo a formatação de destilado é genuinamente brasileiro. 

A Cachaça é nossa, faz parte da nossa história e da nossa cultura. 

Está em nossa RAÍZ.

Referências Bibliográficas

¹ Paterson, Andrew H.; Moore, Paul H.; Tom L., Tew (2012). “The Gene Pool of Saccharum Species and Their Improvement”. 
² Daniels, Christian; Menzies, Nicholas K. (1996). Needham, Joseph (ed.). Science and Civilisation in China: Volume 6, Biology and Biological Technology, Part 3, Agro-Industries and Forestry.
³ Parker, Matthew (2011). The Sugar Barons: Family, Corruption, Empire and War.
Mintz, Sidney Wilfred (1986) [1985]. Sweetness and Power: The Place of Sugar in Modern History.
Hyams, E. Dionysus: A Social History of the Wine Vine. NY: Macmillan, 1965, p. 226. Hyams, p. 226.
Braudel, F. Capitalism and Material Life, 1400-1800. NY: Harper and Row, 1974, p. 170.
Forbes, Robert James (1970). A short history of the art of distillation: from the beginnings up to the death of Cellier Blumenthal.
Silva, Jairo Martins da. Cachaça: história, gastronomia e turismo. São Paulo: Editora Senac de São Paulo, 2018.Silva, Jairo Martins da. Cachaça, o mais brasileiro dos prazeres.

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